12 abril 2010

A PRAGA DO POLITICAMENTE CORRETO

Se ainda não existe um dicionário oficial do politicamente correto, não é por falta de quem queira escrevê-lo. Não tenha dúvida de que muitos vivem rascunhando os códigos que julgam ser politicamente corretos. E aí está uma das questões centrais da discussão: quem teria competência ou autoridade para ditar aquilo que seria PC? Quem detém o arbítrio e a verdade, nesse território sem dono e sem fronteiras?  Além da discussão sobre discriminação de minorias e de grupos raciais, tem muita gente e muitos grupos que também se dizem atingidos de outras formas. Quem dirá o que é, de fato, legítimo? Conheço pessoas que não querem ser chamadas de gordas. Outros, de surdos. Alguns, de branquelos. Muitos, não aceitam ser rotulados de aposentados. 

Afinal, o que é PC? Aonde essa onda nos levará?  

A língua não serve só para comunicar. É também poderoso instrumento de persuasão e manipulação. Afinal, dominar pessoas por meio de discursos é mais eficiente do que manter um soldado em cada esquina. E, muitas vezes, a manipulação ideológica se oculta sob um manto de boas intenções. É o caso da chamada linguagem politicamente correta (PC, para simplificar).

A observação é de Aldo Bizzocchi, doutor em linguística, que vai fundo nesse tema:

Tempos atrás, o governo lançou o documento Politicamente Correto & Direitos Humanos, mais conhecido como "cartilha do politicamente correto", com 96 palavras ou expressões pejorativas, como "beata", "comunista", "funcionário público", "preto" e "anão". Essa iniciativa foi, à época, duramente criticada na imprensa.
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Mas por que iniciativas desse tipo, aparentemente nobres e justas, terminam torpedeadas até por intelectuais?

Primeiro, é impossível legislar sobre a língua, ao menos em regimes democráticos (nos ditatoriais, é possível até proibir línguas, como fez Franco, na Espanha, com o catalão e o basco). Segundo, esse tipo de interferência do Estado na fala das pessoas é fascista.

Segundo o filósofo francês Vladimir Volkoff, autor de La Désinformation par l'Image, o PC é resultado da mistura dos restos de um cristianismo degradado, um socialismo reivindicativo, um economicismo marxista e um freudismo em permanente rebelião contra a moral do ego. É a observação da sociedade e da história em termos maniqueístas, decorrente da decadência do espírito crítico, e de uso comum entre intelectuais desarraigados. Diz ele: "Se compararmos a demolição do comunismo com uma explosão atômica, diremos que o politicamente correto constitui a nuvem radioativa que acompanha a hecatombe".

Esses são trechos de um texto de Aldo Bizzocchi, que está disponível na ótima Revista Língua Portuguesa, no site www.revistalingua.uol.com.br  Deixo aqui o convite para uma visita ao site, ao mesmo tempo em que proponho a expansão do tema, reproduzindo, em página anexa, uma interessante entrevista de Marc Vitellio com Vladimir Volkoff, o filósofo citado na matéria.
Leia a entrevista
Leia mais: o marxismo cultural como origem do PC

(escrito por Ricardo Zani)

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