23 fevereiro 2017

JÁ QUE A CHUVA NÃO VEM...

Já que a chuva não vem, então vamos nós...

BANHO A DOIS A GENTE NUNCA ESQUECE

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Só um almoço estava programado. Nada mais. O que veio depois foi capricho do acaso, numa tarde de sexta-feira, com céu nublado e ventos úmidos.
Aliás, é sempre assim. Depois de um demorado almoço, temperado com boa conversa, belos sorrisos e regado a vinho, inevitavelmente uma tarde cinzenta costuma sugerir um desfecho íntimo e marcante.
Linda, delicada, inteligente, sensual, toda em forma e arrumadinha, Luana é amizade antiga. A queridinha de Roberto...
Já se conhecem bem. Ou pensam que se conhecem, pois ela mal imagina o quanto ele a admira e até que ponto consegue atraí-lo. Roberto, por sua vez, nem desconfia da insignificância que isso tem para ela.
Enfim, naquela tarde, algo raro está por acontecer.
Ele fica um pouco ansioso. Afinal, seria um banho – e bem diferente.
Quando o imprevisto começa a rolar, Roberto rapidamente se põe a imaginar... Banho quentinho, em ambiente aromatizado, à meia luz, com acabamento em madeira trabalhada. Banheira com estabilizador de temperatura e taças bem servidas nas mãos de ambos. Ao fundo, voz e piano de alguma diva do jazz...
Volta à realidade quando os dois começam a ficar mais próximos, corpos bem juntinhos. E logo se preparam para o primeiro banho a dois, numa tarde romântica de verão tropical.
Mas as coisas acontecem tão rapidamente, que ele abandona a mania de tudo planejar. Em poucos minutos, tudo sai de controle. Uma daquelas situações em que o inesperado assume o comando.
Assim, agora ali estão em situação bem diferente daquela que a imaginação dele acabou de visualizar. Eles não têm à mão bebida nem taça, mas um pequeno guarda-chuva. Juntinhos, sim, porque é pequeno para duas pessoas.
Na chuva gelada e torrencial, o vento agita a saia rodada de Luana, sacode árvores e revira o guarda-chuva. Ao cruzarem o jardim, a ponta do guarda-chuva enrosca no galho de uma árvore baixa. Eles avançam, o guarda-chuva fica e as folhas despejam mais água. Se alguma peça de roupa ainda estava seca, encharca nesse descuido dele, que Luana reprova furiosa.
A essas alturas, com a roupa já colada nos contornos delicados do corpo, ela prefere tirar os sapatos. Ao se abaixar, mais uma ducha...
Da porta do restaurante onde estavam até a vaga do carro, no estacionamento no outro lado da quadra, é banho completo, dos pés à cabeça.
Ufa! Foi tudo um grande apuro para ela, que tinha compromisso profissional logo em seguida!
Porém, Roberto não tinha por que se culpar. Havia avisado: “Melhor esperar aqui no restaurante, porque lá fora a chuva está forte, com ventania.”
Não teve jeito. Ela estava no limite do prazo para chegar à reunião de trabalho e insistiu que iria, nem que fosse a nado.
Não foi nadando, mas navegando como bravo marinheiro em águas agitadas.
Poucas milhas depois, Luana chega ao trabalho! Ensopada, ofegante e quase em estado de hipotermia. Mas pontual para sua reunião!
Quanto a Roberto... Lamentou em silêncio por não ter o banho que as fantasias do vinho sugeriram. Ainda assim, ao entrar em uma rede social, minutos depois, parecia feliz: “Uau! Pessoal, acabo de sair do banho mais marcante da minha vida.”.

(Escrito por Ricardo Zani)
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07 julho 2016

SAUDADE DOS TEMPOS EM LINS

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Saudade de tempos distantes e do uniforme de brim, lenço no pescoço e quepe na cabeça. 
Da vibração dos desfiles de 7 de Setembro. Bons tempos do Horto Florestal. Cinema, com matinê e vesperal. 
 Passeios de bicicleta com meu pai, pelas poucas ruas asfaltadas na época. Nenhuma saudade dos pés-d’água gelados longe de casa.  
Quermesses com cheiro bom de churrasco e auto-falante animado. Missa de domingo às seis da manhã na Catedral... Quanto esforço pra acordar, tanto prazer de ir e voltar, nenhum motivo que pudesse explicar... 
Nos cafezais, sábado de pagamento. Nos armazéns, dia de movimento. 
Domingo, carona no caminhão do tio pra ir a algum sítio visitar outro tio. 
Traquinar com Carlinhos, rir de tudo com Ariovaldo, filmar as meninas com o Paulo Décio. 
Ver futebol no Fernando Costa e campeonatos noturnos na quadra do Comercial. 
A vitalidade e as histórias da boemia na Vila Ribeiro. 
Sentar na calçada pra ver a moçada voltando das aulas noturnas. 
De madrugadinha, ir com meu pai ao Dourado, sonhando com a piapara no anzol. 
Noites de adolescente sozinho em sábado vazio, ao consolo da música vibrante em algum parque distante. 
Nas margens do Campestre, seguir os passos do pai, que seguia o canto do curió, quando isso não fazia dó. 
Lembranças de apitos... Apitos solitários que abrandavam a noite, afastavam mistérios e advertiam becos sombrios, soprados pelo pontual guarda-noturno. Era manco de uma perna e vagaroso nas duas. Da janela, eu via seus passos cansados e a solidão que o emboscava toda noite. Mas algo em sua ronda inspirava confiança. Talvez sua persistência, o olhar gelado e o rosto enrugado, como as temidas personagens de Charles Bronson. 
Primeiros tempos do Cine Lins, onde se combinavam as emoções dos épicos estrangeiros e o glamour das moças da cidade. 
Primeiros anos do I.E. 21 de Abril, entre a descontração simpática do Professor Júlio e a matemática impiedosa da professora famosa. Era temida como um teorema e desejada qual musa de Ipanema. 
Deliciosos e intermináveis casos contados pelo professor Joaquim Borges Rodrigues. Histórias de caçadas? A turma gostava e pedia bis.
Os hábitos rígidos do professor Agostinho, que convocava educação física para madrugadas de inverno, na neblina cruel das 6 da manhã. 
Saudade das opções de fuga, quando trocava a aula de equação pela pausa de contemplação na Praça da Bandeira, entre passarinhos divertidos e canteiros coloridos. Que meus netos façam o mesmo, mas sem “matar” aulas. 
Acordar bem cedo e cumprir a missão de moleque útil em tempos de vacas gordas: pedalar até a chácara pra buscar leite no curral. Saudade do leite? Muito mais do cheiro do mato amanhecendo e dos restos de orvalho no tênis furado e no pneu surrado. 
Saudade de tanta gente que circulava de Vespa, turma que roncava com Lambretta e alguns que desfilavam de Jawa malagueta. 
Sábado, passeio caipira com salgadinho do Bira. Domingo, com as crianças à noite, para um lanche de rei, sempre no Autaddei. 
Café sem pressa na Esquina do Pecado. Depois, sair do trabalho cansado. E porque passava da meia-noite, a gente passava na padaria da “Batian”, alto da Rui Barbosa, entrando pelos fundos, como os velhos fregueses, para chegar em casa com pão quente na mão. 
Saudade, saudade dos guias pelas mãos dos quais encontrei meus caminhos. Sem fazer injustiça a outros, por dois tenho especial gratidão pelo apoio quando hesitei, confiança quando tremi e força quando precisei: radialista Cilmar Machado e o então funcionário da Delegacia Regional do Trabalho, Nelson Pereira da Silva. 
Porque retribuir é dever. E recordar é viver. 

(Escrito por José Ricardo Zani e publicado em 2007 na Usina de Letras)

06 maio 2016

WHATSAPP: BLOQUEIO FOI PREVISTO EM ANTIGAS PROFECIAS


Todos sabem que a decisão judicial que bloqueou o WhatsApp em maio tem relação com outra medida, já adotada em dezembro, quando um juiz de Lagarto - SE solicitou o bloqueio temporário do WhatsApp em todo o país, porque os donos do aplicativo deixaram de fornecer informações para uma investigação criminal.

Mas o que ninguém sabia é que ambas têm relação com profecias que datam do início era cristã. Dizem as escrituras que, disposto a eliminar pela raiz o receio de que um novo rei surgisse em territórios sob seu domínio, Herodes procurou saber quem era e onde estava a anônima criança que viera ao mundo profetizada como messias.

Mas, como suas buscas foram infrutíferas, quis o rei que o peso do poder compensasse o fracasso das buscas. Então, segundo versão não escrita nem conhecida, ordenou que os sacerdotes e centuriões encontrassem algum jeito, qualquer que fosse, de deter o futuro messias.

Dias depois, um dos sacerdotes o procurou para confidenciar-lhe um sonho ou visão – não se sabe ao certo – que poderia apontar uma solução. Explicou que um anjo se manifestou nessa visão, mas veio das sombras e abismos, não da luz. 
    
Materialista, afoito e prepotente, Herodes queria saber da solução, não da sua origem, nem tampouco se esse anjo tocava banjo, harpa, cuíca ou pandeiro. Eis então que o sacerdote lhe reproduz a mensagem trazida pelo anjo torto:

“Majestade, adoteis o critério infalível de legisladores e doutores dos séculos futuros, que advirão nos tormentos finais, no último reino da decadência. Viverão em florestas verdes sob impérios negros, em vermelhas brasas de pau brasil, alhures e além-mar. Extremistas serão os métodos, mas simples e fácil será a execução. Pois que, incapazes de reconhecer malfeitores na multidão, por malfeitores tomarão a todos e ao povo em geral. Ungidos no ópio da desordem ética, aos condenados renderão plenas honras e aos retos e honrados, mão de ferro e desprezo. Impotentes para desarmar os maus, desarmarão os bons. Fracos para apartar os alucinados das rédeas em urbes e vias, das rédeas e lemes apartarão até aqueles que bendito cálice sorverem à mesa abençoada.”

Não consta que Herodes tenha abstraído todo o sentido da profecia, mas seu instinto malévolo prontamente absorveu o lado cruel da mensagem. Ordenou, então, que todas as crianças, abaixo de dois anos, fossem sumariamente eliminadas. 

Não cabe supor nem insinuar que a decisão de Lagarto tenha-se inspirado em Herodes ou que exista analogia no núcleo dos enredos. Na Palestina, havia um inocente na mira do rei, aqui há suspeitos na mira da Justiça. Mas cabe admitir a indagação: Herodes se inspirou no critério de Lagarto?
           
Pelo que se infere de tal critério, se os agentes do crime se comunicassem entre si por pombo-correio e a investigação fosse incapaz de identificar qual pombo é o mensageiro, então seria o caso de decidir pelo extermínio dos pombos?

Na mesma linha de raciocínio, caso a comunicação fosse por sinais de fumaça, então todo fogo haveria de ser proibido? Sim, mas caberia ressalva. No teor da ordem judicial, o fogo do inferno estaria liberado.

No inciso primeiro da ressalva, viria a explicação “Todo fogo do inferno fica liberado, pois não cabe a este tribunal contrariar a natureza e as práticas de instâncias mais avançadas.”

Escrito por: Ricardo Zani
Gênero: Ficção


03 abril 2016

POR TRÁS DO SAMBA-CANÇÃO

Ruy Castro investiga as origens e  o auge do samba-canção em novo livro

"A Noite do Meu Bem" reúne histórias do gênero musical mais ouvido no Brasil dos anos 1940 e 1950

Créditos: ZH (Zero Hora) - Alexandre Lucchese 

Ruy Castro investiga as origens e o auge do samba-canção em novo livro Companhia das Letras / Chico Cerchiaro / Divulgação/Divulgação
Trajes elegantes, carros importados e doses de uísque, ou melhor, "scotch" a preços astronômicos. Assim era a vistosa noite carioca da década de 1940, onde os grã-finos da época podiam ir de boate em boate com um copo na mão até os primeiros raios de sol fulminá-los – alguns destes senhores, ministros e assessores da presidência, davam um trato no visual em barbearias convenientemente instaladas no subsolo das casas noturnas e iam direto para reuniões e outros compromissos matutinos.
Foi nesse meio frequentado pelas elites do país que surgiu um dos gêneros musicais mais populares da época, o samba-canção. Capazes de desbancar quaisquer atrações internacionais nas rádios e lojas de discos, nomes comoDolores DuranMaysaNora Ney,Dick Farney e Miltinho foram algumas das vozes que divulgaram essa mistura de ritmo brasileiro com a suavidade e a poesia da canção. A história desses e muitos outros personagens é resgatada agora no livro A Noite do Meu Bem, no qual seu autor, Ruy Castro, leva o leitor pela mão em um passeio inebriante por duas décadas de boemia carioca. 
Apesar de ter títulos sofridos como Ninguém me Ama (Antonio Maria-Fernando Lobo), Fracasso (Mario Lago) e Até o Amargo Fim (Newton Teixeira e David Nasser), o samba-canção nasceu em um ambiente badalado e, para Ruy Castro, espelha também essa euforia: "É a música a que duas pessoas apaixonadas sempre poderão recorrer quando sentirem o seu amor em perigo", escreve. O início do livro recupera a história da boemia carioca a partir do fim decretado dos cassinos, que abriu caminho para o florescimento das boates, espaços em que homens só entravam de terno e gravata, e mulheres, acompanhadas. Foi nos palcos intimistas desses espaços que o samba perdeu força no ritmo para ganhar mais delicadeza nas melodias e dramaticidade nas letras. 
A narrativa sobre o abre-e-fecha de estabelecimentos, bem como os erros e acertos de empresários, garçons e maîtres que permitiram o êxito ou o fim das casas, só não é enfadonha por conta da prosa elegante e sutilmente bem-humorada de Ruy Castro. O autor relaciona as mudanças físicas da então capital federal com as transformações do poder, constituindo uma rica (e divertida) aula de história. 
Para ler e ouvir 
Depois da primeira centena de páginas, A Noite do Meu Bem se centra na produção musical, contando desde bastidores de composições até detalhes da vida de ídolos da época. A rivalidade musical entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, que desfizeram um casamento repleto de violência doméstica, mas seguiram discutindo no rádio por meio das letras de suas canções, é apenas um dos vigorosos resgates do livro, que reconstitui o passado atribulado de nomes como Nora Ney e Doris Monteiro. 
O livro se entende até o início dos anos 1960, quando, entre outras circunstâncias, o Rio deixa de ser a capital do país, e o samba-canção começa a dar as bases para a música que nascia na cidade, a bossa nova. 
Ao final, estão 80 páginas com bibliografia, discos e filmes recomendados, além de uma "cançãografia" com mais de 500 faixas indicadas _ quase todas acessíveis na internet. São ferramentas para o leitor fazer uma imersão mais profunda em noites que tinham um permanente ar de sedução e a música era a maior de todas as vedetes. Difícil será voltar do mergulho e ligar o rádio outra vez. 
Algumas histórias do livro:

Noel Rosa foi resgatado em repertório de Aracy de AlmeidaFoto: Reprodução / Ver Descrição
A volta de Noel Rosa – Onze anos depois de sua morte, Noel Rosa (acima) já estava esquecido no Rio: havia desaparecido das rádios e das lojas de discos. Foi Aracy de Almeida quem fez o nome do poeta da vila voltar à tona, quando convidada a se apresentar na boate mais prestigiada da cidade, o Vogue, em 1948. O repertório da cantora era centrado na obra de Noel, e a interpretação, acompanhada do pianista americano Claude Austin, fez toda a plateia perceber "que todos aqueles grandes sambas de Noel eram¿ sambas-canção", escreve Ruy Castro. As apresentações motivaram o resgate fonográfico do compositor: "O Vogue fez surgir um novo Noel, maior até do que em vida, e para sempre", sentencia o livro.

Aracy de Almeida fez sucesso no VogueFoto: Arquivo Hermínio Bello de Carvalho / Divulgação
Araca em Copa – A ideia do Vogue contratar Aracy de Almeida (abaixo) não fazia sentido para muita gente. A refinada boate de Copacabana parecia a antítese dos lugares que Araca costumava frequentar, como os bares da Lapa e de outros redutos de malandros, navalhas e palavrões da cidade. Para Ruy, foi provavelmente a insistência de alguns playboys admiradores da cantora que convenceram a direção da boate de que, apesar de parecer grossa, Aracy tinha um lado "fino" _ lia Augusto dos Anjos, ouvia jazz e Beethoven e "seus cachorros comiam filé e dormiam em edredom". A plateia logo se apaixonou pela cantora: mesmo quando bradava para o público, às 4h da madrugada, "cansei de cantar. Vão tomar no cu!", recebia aplausos gerais.

Dalva de Oliveira, na capa da Revista do RádioFoto: Fundação Biblioteca Nacional / Reprodução
Dalva X Herivelto – Quando casados, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins eram inimigos íntimos. A cantora (ao lado) chegou a perder um bebê por conta dos socos e pontapés recebidos do marido ao contar sobre a gravidez. Já em outra ocasião, Herivelto (abaixo) teve a cabeça aberta por um cinzeiro arremessado pela mulher. Depois de separada, a cantora começou a triunfar no rádio, e a animosidade entre ambos cresceu. Tanto os sucessos cantados por ela, como Que Será e Errei, Sim, quanto os compostos por ele (Caminho Certo e Perdoar), continham provocações, que ganhavam repercussão na imprensa. O jornalista David Nasser chegou a criar para Herivelto uma série de textos no vespertino Diário da Noite, com artigos intitulados Dalva, rainha do despudor e (Dalva) Não é mãe; teve filhos, entre outros, mas não foi capaz de abalar o amor do público pela cantora. 

O compositor Lupicinio Rodrigues ficou conhecido pela voz de Francisco AlvesFoto: Coleção José Ramos Tinhorão / Acervo Instituto Moreira Salles
Lupi - O livro explica que a história de Nervos de Aço, supostamente escrita depois que Lupicínio Rodrigues (acima) fora abandonado por sua noiva, ajudou a criar a lenda, estimulada pelo próprio compositor, de que todas as canções do gaúcho refletiam histórias por ele vividas. Ruy lamenta: "Não era verdade, e só servia para reduzir Lupicínio a uma espécie de cronista da cornitude, quando o que importava era o seu poder, quase insuperável, de penetrar no coração masculino". A Noite do Meu Bem também conta por que, nos anos 1940, o nome de Lupi era geralmente associado ao do cantor Francisco Alves, que popularizou canções como Esses Moços e Cadeira Vazia (esta, em parceria com Alcides Gonçalves), e de como foi importante quebrar esse aparente monopólio.