POESIA & MELODIA (selecionadas pelo editor)

06 novembro 2014

LISARB, O PAÍS ÀS AVESSAS


Por Luiza Ribeiro e Ricardo Zani

Lisarb (1) é um país às avessas, considerado o reino do absurdo, onde o que deveria ser sério é piada e vice-versa. Logo, nem todos conseguem entendê-lo. Por isso, um glossário pode ser útil a quem quiser compreender esse lugar incomum.

PEQUENO GLOSSÁRIO PARA ENTENDER LISARB

ALFABETIZAÇÃO – Treinamento rápido, por meio do qual as pessoas aprendem a ler a cédula eleitoral e assinar o nome. Também se exige que o homem público saiba assinar. É a habilidade exigida dos políticos que produzirão leis, decretos, orçamentos e projetos.

BANDIDO – Figura que Lisarb trata como cidadão, conferindo-lhe amplos direitos e proteções. Não é raro vê-lo em altos cargos públicos, blindado contra investigações, processos e punições.

BICHEIRA – Combustível. Desnecessário explicar em detalhes. Basta dizer que em Lisarb não é permitido vender gasolina pura.

BOLSA-TUDO - Ferramenta muito eficiente para a prática do toma-lá-dá-cá.

CIDADÃO – Figura que Lisarb trata como bandido. Habitualmente desprezado, humilhado e desrespeitado em seus direitos básicos, exceto em vésperas de eleições. A lógica é a seguinte: cidadão é tratado como bandido e vice-versa.

CONSTITUIÇÃO – Núcleos políticos poderosos gostariam que ela fosse flex, como os automóveis de Lisarb. Como não é, tentam modificá-la de acordo com a ocasião e os interesses em jogo.

CORRUPÇÃO – Religião. Tem origens históricas, pregadores convictos e legiões fanáticas.

CRIANÇA – Lactentes, pré-adolescentes, bad boys, lutadores de artes marciais, traficantes, atiradores, sequestradores, todos são alinhados no mesmo grupo. Eles são considerados bebês indefesos, enquanto tiverem menos de 18 anos. Gozam de impunidade e são poupados do trabalho. Entretanto, aos 16 podem escolher o presidente da República.

DIREITOS HUMANOS – Eufemismo político, muitas vezes utilizado para proteger criminosos.

ELEIÇÕES - Para muitos candidatos, as eleições são a situação perfeita para usufruir a ferramenta do toma-lá-dá-cá.

EMPREGO – Bobagem. Não há necessidade de se preocupar com emprego. Mecanismos de amparo e de assistencialismo permitem articulações por meio das quais o cidadão recebe mais na condição de desempregado do que se empregado estivesse. Em muitos casos, esse recurso, somado a bolsas e outras formas de auxílio social, tornam o desemprego mais atraente do que o emprego formal.

ESCOLA PÚBLICA – Jogo. Em torno da escola se passa um complexo jogo de faz-de-conta. Muitos fingem que ensinam, alunos fingem que aprendem e governantes fingem que a educação nunca esteve tão bem. Se necessário, modificam-se critérios de acesso e de aprovação, de maneira a turbinar as estatísticas do ensino. Tem ainda o jogo de cena com os orçamentos da educação e jogo de empurra com as responsabilidades. Obviamente, políticos eleitos pelo voto ignorante veem as escolas como inimigas. Assim, projetos de escolas públicas de alta qualidade nunca passam de promessas e falsas intenções. Da mesma forma, o fato de boas escolas particulares serem inacessíveis à maioria da população em nada incomoda esses políticos.

ESTADO – Senhor a quem o cidadão serve. Lisarb criou as figuras do Estado-fim e do cidadão-meio. Este trabalha para proporcionar fortunas, poder e bem-estar àquele.

FUTEBOL – Escola. É também modelo de organização e uma das poucas atividades que ensinam regras, fundamentos, limites, disciplina e lealdade. É um dos poucos setores em que as coisas funcionam de forma exemplar: profissional preguiçoso é vaiado, dirigente ruim tem carreira curta e juiz não pode deixar nada para decidir depois.

GAMBIARRA – Energia elétrica. O sistema de distribuição e manutenção de energia é um exemplo bem acabado de gambiarra em grande escala. Uma megambiarra.

IMPOSTOS – Grande Muralha. A configuração da carga tributária de Lisarb é uma reprodução da Muralha da China: é a maior do mundo, vem de uma concepção antiquada, ninguém sabe para que serve, não é utilizada na finalidade para a qual foi criada e representa um obstáculo em todos os sentidos.

IMPUNIDADE – A base de tudo. Nas leis, para cada artigo que manda prender, seguem-se três parágrafos que mandam soltar. Desde o útero, bebês de Lisarb aprendem a ser impunes. Ao nascer, contestam o obstetra se houver ameaça de uma palmadinha. Já no primeiro ano de vida, a criança deixa de acreditar em cegonhas e passa a confiar na impunidade. De fato, vai tê-la assegurada por lei até os 18 anos. Depois, dá-se um jeito. Em Lisarb, sempre se dá um jeitinho. Essa impunidade é sucesso no mundo do crime, onde adolescentes a negociam para atuar como escudo de adultos. Assim, bandidos terceirizam para menores as ações mais arriscadas, valendo-se da lei da maioridade penal.

JEITINHO - Uma das práticas lisarbeiras(2) mais notáveis. Apesar da conotação negativa, o jeitinho também reflete um espírito flexível e alguns traços positivos, como capacidade de interpretar regras com bom senso, solucionar entraves burocráticos e humanizar o atendimento. Quem chegou a um aeroporto de Lisarb a um minuto do fechamento do check in conhece a importância do jeitinho. Mas quem passar pelo igual apuro no EUA, Alemanha, Suiça e outros países onde não há jeitinho ficará para o próximo voo.

LOCOMOÇÃO – Ato de ir mal e vir pior. Na prática, significa “dane-se”. No território de dimensões continentais, contam-se nos dedos as rodovias de padrão aceitável. O sistema de transporte público é precário e falido. Em muitos casos, assaltos a ônibus são mais regulares do que as viagens desses ônibus. As poucas ferrovias construídas foram sucateadas, as ligações fluviais são mal aproveitadas, o funcionamento das linhas aéreas se confunde com caos e o trânsito urbano é uma avenida improvisada que vai do lapso ao colapso. Sendo assim, quem não quiser se danar, que tenha um avião particular. Chacota? De modo algum. Lisarb tem uma das maiores frotas de aviação geral do mundo.

MARKETING – Ferramenta para fazer com que as coisas pareçam o contrário do que são. Funciona assim: quanto menos eficiente é um político ou um setor público, maiores são os gastos com estratégias de convencimento em massa, para convencer mais pessoas de que ele está indo bem. Quanto maiores são esses gastos com marketing, maiores são os cortes de investimentos no tal setor que funciona mal.

PRESÍDIO – Historicamente, corruptos, quadrilhas organizadas e motoristas que matam no trânsito raramente vão para o presídio. Se alguns figurões estiveram lá, foi de passagem. Aliás, em Lisarb é mais provável que você seja preso por chamar alguém de neguinha ou negão do que por praticar atos terroristas.

RAÇA – Conceito que vai-se transformando em instrumento de divisão social. Diferentemente dos países que defendem o princípio de que todos são iguais perante a Lei, muitos setores de Lisarb defendem que haja uma legislação para cada etnia. Lutam para conceituar como raças as variações de cabelos, olhos e pele. A partir disso, procuram criar proteções e cotas de oportunidades conforme esses traços.

RELIGIÃO - Nesse campo, Lisarb também é do contra. Felizmente, no bom sentido. A história universal é repleta conflitos e guerras entre povos divididos por crenças religiosas. Em Lisarb, porém, convivem pacificamente doutrinas que vão de católicos a mórmons, passando sem atritos por outras como candomblé e islamismo. É mais comum ocorrerem brigas entre torcidas de futebol do que entre adeptos de diferentes religiões. Cada um segue a crença que quiser e ninguém briga com ninguém.

SAÚDE – Deus dá e o poder público tira, principalmente através de alimentos não fiscalizados e da falta de saneamento básico e de serviços de saúde pública. Se alguém acha que saúde é algo importante, tem de pagar duas vezes. A primeira, por meio de impostos. A segunda, via médicos e clínicas particulares.

SEGURANÇA – Regalia de quem vive no crime. A esses é atribuída a condição de intocáveis. Andam bem armados e circulam a qualquer hora e em qualquer lugar. Quanto aos demais, pagam por segurança na forma de impostos, mas só a tem se pagarem também por carros blindados, segurança particular, seguro, cerca elétrica e escolta armada. Há governantes que veem com bons olhos essa iniciativa particular, mostrando-se gratos pela cortesia que os livra dos gastos e da amolação que teriam se fossem proporcionar segurança à sociedade. Em suma: no setor de segurança pública, Lisarb é como o Velho Oeste. Com uma diferença: em Lisarb, só o bandido anda armado.

TECNOLOGIA – Existe e tem alto nível. Quanto às políticas para sua utilização, isso é outra história. Por exemplo: em 24 horas, Lisarb consegue apurar as eleições em milhares de municípios. A apuração de crimes eleitorais, no entanto, pode demorar anos. A arrecadação de impostos é on line, na boca do caixa. A restituição do imposto retido pode levar meses. A área de cirurgias estéticas está entre as mais avançadas do mundo. Na área de emergência de muitos hospitais públicos podem faltar seringas, agulhas, gaze e macas. Para esclarecer se o atacante estava impedido quando chutou, há tecnologia de padrão NASA. Mas quando ocorrem desabamentos, inundações e grandes tragédias usam-se trena e calculadora para investigar e dinheiro público para acalmar a população através da mídia.

TOLERÂNCIA ZERO - No país das contradições, têm de haver algumas que contradizem sua própria essência. A lei da Tolerância Zero é a pérola! Enquanto nas fronteiras do país o contrabando passa confortavelmente com drogas e armas pesadas, ninguém passa por uma blitz depois de brindar na festa de batizado ou no happy hour. Se for atingido pela maldição do bafômetro, até o sacerdote que levantou o cálice de vinho na celebração será condenado por embriaguês. No país da descontração e das festas alegres, ainda que o histórico de sua habilitação seja impecável, se dirigir depois de um gole, será considerado um monstro. Aliás, é mais fácil alguém ser preso se beber uma taça no batizado do que se desviar 1 bilhão de dólares de alguma empresa estatal.

ZONA – Seria Lisarb uma zona? Depende de que zona se utiliza na comparação. Em todo caso, essa pode ser uma percepção bem sedimentada. Mas nem tudo está perdido. Existem razões para acreditar que tudo vai mudar e que muita coisa será saneada antes do que preveem as profecias. Vigiai e orai...
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(1) Palavra empregada pelo jornalista Geraldo Tite Simões, para se referir a um país onde tudo é o contrário do que deveria.
(2) O gentílico de Lisarb é lisarbeiro. Qualquer rima é mera coincidência.

15 outubro 2014

14 outubro 2014

FOTOS-CONCEITO



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Agradecimentos: Luiz Carlos Oliveira (Mergulhão).

03 agosto 2014

DIÁRIO DE BORDO

Em maio/2014, os amigos Wellington, Regimar, Galvão, Pedro e Nilson realizaram outa trip de motocicleta, esta pela Bahia e Minas Gerais, partindo de Brasília. Aqui, Wellington Figueiredo narra lances marcantes dessa viagem inesquecível.



Ah, que desejo de permanecer mais um tempo sobre os altos da Chapada Diamantina de onde os olhos amiúdam para aproximar os longínquos campos de cujo chão nascem outras, mais outras e seguidas montanhas tortuosas.
Ao observar as dobras sobre dobras de tantas montanhas a se estenderem até aonde a vista esbarra em cores e formas inebriantes, sentimo-nos super-homem nietzschiano. 
Do alto da serra a alma é confrontada com os desejos alcançados e levianamente instiga novas aventuras.
Sobre as motocicletas, olhando para tantos passados vividos e agora a perseguir um futuro a ser ludicamente tramado, encontramos cúmplices nas almas livres dos companheiros de aventura.
Depois que as montanhas ficaram às costas, nossas motos curvam-se sobre a tortuosidade das estradas e enfileiram-se sobre os retões que nos levam aos mares da Bahia.
 Insanos devaneios que borbulham sob o vento rompido! O zuar das motos dá olhos às montanhas, sacode o adormecido sertão baiano e desperta desejos naqueles que nos assistem passar!
É sobre as motos que percorremos serenos e saudosos o passado, e impávidos tecemos desejos de futuro. É sobre nossas motos que nos acompanheiramos, mesmo separados alguns metros uns dos outros.
Nossas motos deslizam sobre o asfalto e se perseguem em fila indiana, curvam e descurvam, ora para a direita, ora para a esquerda.
De Correntina, a lembrança de Pedrão fazendo-se passar por artista da Globo, a distribuir autógrafos até se aventurar a chutar a bola que o levou ao chão! De Itacaré, a recordação de um mar calmo, acolhedor e disposto a nos sustentar no balanço das ondas se mescla à efervescência de turistas de língua espanhola e inglesa. De Canavieiras, o mar e a praia que nos pertenciam! Lá persistem os casarões de uma época da qual já ouvimos falar. Em Canavieiras, o Galvão inscreve seu nome na blusa da alemã, que não pronuncia uma palavra em português, mas que se faz entender pelo olhar, pelas mãos, pelo sorriso; o Nilson absorto nas ondas mansinhas que desbeiçam sobre a areia, talvez lhe trazendo as lembranças e a vontade de compartilhamento com tua mulher e com tuas filhas; o Regimar (quem sabe  acompanhado pelas lembranças do seu curumim, João Mauro?!)  percorre a areia fina sempre delimitada pelos altos coqueiros e pelas borbulhas do mar sobre a praia.
 Ah, as estradas! Elas reclamam por atenções. E as pessoas com quem cruzamos se espantam ao saberem que viemos de Brasília.
Infelizmente, a exuberância do céu, das serras da Bahia, das praias e do oceano contrasta com o infortúnio de muitos baianos que ainda vivem à margem das conquistas socioeconômicas deste Brasil.
Fica a esperança de voltarmos um dia, para vermos corrigida essa desigualdade...
Wellington

20/05/2014 

Da esq. para direita: Pedro, Nilson, Regimar e Wellington.

Pedro, Wellington, Galvão e Regimar.

19 julho 2014

LUTO NAS LETRAS

Na mesma semana, o Brasil perde dois grandes escritores. Vale a pena recordar alguns momentos de Rubem Alves (filósofo, teólogo, psicanalista, educador, escritor) e João Ubaldo Ribeiro (escritor, jornalista, roteirista, professor e membro da Academia Brasileira de Letras).
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