18 janeiro 2010

JOÃO CABRAL: MUSEU DE TUDO


O cabra pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) considerava que poesia era uma coisa romântica para gente meio afeminada. Mas tudo mudou ao entrar em contato com a poesia fragmentária, gaguejada e torta de Carlos Drummond de Andrade. Ler Drummond funcionou como uma revelação. João percebeu que poderia inventar uma poesia macha, tensa e tesa, com língua de faca, mandacaru e fuzil. Na busca obsessiva de fazer poesia com coisas, João criou poemas concretos, poemas-objetos, esculturas verbais cubo-futuristas: "O sol de Pernambuco é sol de dois canos/de tiro repetido./O primeiro dos dois, o fuzil de luz/revela real o real: tiro de inimigo".

Contudo, essa postura de negar a subjetividade alimentou o mito de que seria um poeta exclusivamente cerebral, um homem sem alma, que tinha como principal musa a razão, a cabeça de engenheiro. A própria obra de Cabral se encarrega de desmentir esse mito, pois a arquitetura rigorosa de sua poesia é sempre minada pela tensão do cabra pernambucano visceral: "E, por baixo, a realidade prima/Tão violenta, que ao tentar aprisioná-la/Toda imagem rebenta".

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