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A VI Festa Literária Internacional de Paraty, que começou ontem, dia 2, tem Machado de Assis como homenageado de 2008, ano que marca o centenário de sua morte.
Em sua palestra, o principal estudioso da obra de Machado no Brasil, o professor da USP e crítico literário Roberto Schwarz, foi centro das atenções na abertura da Festa. Segundo nota do site da FLIP, "Schwarz fixou suas observações no romance Dom Casmurro, sobretudo na cena inicial, passada no interior de um trem, na qual o protagonista, Bento, que é também o narrador em primeira pessoa, conta como recebeu, na forma de uma crítica de um conhecido que vivia em seu mesmo bairro, o apelido que dá título ao livro. Encarou o fato com naturalidade, até com simpatia, a ponto de conquistar a benevolência do leitor mais adiante, quando trata do suposto adultério de sua mulher, Capitu, nos braços de um grande amigo. Esse narrador, segundo Schwarz, nunca foi questionado ao longo de várias décadas, nem pelos críticos nem pelos leitores. Esse 'atestado de pureza' que lhe passaram, na opinião do estudioso, seria o espelho da sociedade patriarcal vigente no Brasil. Em outras palavras, todos sempre se preocuparam em descobrir se Capitu o havia traído ou não, sem jamais colocar em xeque a lógica ou a credibilidade do discurso do próprio Bento – e exatamente nisto, acredita Schwarz, reside o grande desafio de Dom Casmurro. O livro, na opinião dele, permite várias formas de leitura, desde a mais simples, romanesca, até aquela em que se põe em dúvida a figura (ou a sanidade mental) do narrador, um homem obcecado pelo ciúme. Schwarz afirma que nem mesmo os autores modernistas, que viam em Machado um sujeito conservador, alinhado com a classe dominante, souberam entender a sutileza da crítica social que estaria contida em seus livros. Ele admite que os quatro primeiros romances são 'fracos', ainda não deixam transparecer o autor genial que seria aclamado em seus anos de maturidade. Mesmo o Machado incensado nas décadas seguintes, segundo Schwarz, não é decifrado em sua plenitude, nem compreendido em suas sutilezas, mas antes alardeado pelo incomparável domínio do idioma, um estilista da palavra. Só na década de 1960, acredita ele, o autor de Dom Casmurro e outras obras-primas começou a ser reconhecido, nos meios cultos, como alguém que tinha muito a dizer sobre a estrutura social vigente no Brasil, em sua época. Nesse momento, os críticos passaram a compreender que o eixo do livro não estava na possível traição de Capitu, como insistiam seus antecessores, mas na própria voz que conta a história. Schwarz recorda que, após o golpe militar de 1964, a esquerda brasileira – assim como haviam feito os modernistas, na década de 1920 – reafirmou a figura de Machado de Assis como um autor 'de direita'. E foi justamente com a idéia de 'levá-lo para o campo oposto', que ele próprio resolveu se debruçar sobre a obra machadiana. Em diferentes momentos da conferência, Schwarz ressaltou em Machado um atributo que não muitos reconhecem, a ousadia, para além daquilo que todos reconhecem - a genialidade."
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