(Escrito por Ricardo Zani)
Década de 70, época dos circuitos universitários pelo interior. Shows de intérpretes famosos da MPB, de cidade em cidade, reunindo público predominantemente estudantil, num clima bem descontraído.
O show de hoje promete. É aguardado com muita expectativa e cercado de cuidadoso planejamento. Famoso e respeitado, o principal nome do espetáculo já está na cidade.
Assim, logo pela manhã preparo o equipamento e vou ao seu encontro, para uma daquelas entrevistas em que o próprio artista fala do evento, confirma sua presença e responde algumas perguntas do repórter. A entrevista irá ao ar no noticiário de meio-dia, na Rádio Alvorada.
No hotel, localizo o apartamento onde ele se hospeda. A porta está entreaberta, mas prefiro tocar a campaínha. A voz vem lá do fundo, pedindo que eu entre. Dou uns passos e paro. Não vejo ninguém.
-- "Bom dia, amigo. Podemos conversar?", pergunto, sem conseguir localizá-lo.
-- "Sim, entra pra cá", responde.
Dou mais uns passos em direção à suíte, o único lugar onde ele poderia estar. Examino o ambiente e não vejo ninguém.
-- "Estou aqui, amigo. E você, onde está?", pergunto, já imaginando que alguém está de brincadeira.
-- "Chega mais".
-- "Sim, onde você está?", insisto.
-- "Vem pra cá, estou no banheiro".
Êpa, espanto-me em silêncio. No banheiro?
-- "Não, não. Fique à vontade, eu espero..."
-- "Mas eu vou demorar. Pode chegar, não tem problema, podemos conversar aqui mesmo", explica o artista.
A situação parece-me, no mínimo, estranha. Um ídolo está ali no banheiro, diz que vai demorar e me pede para entrevistá-lo lá mesmo. O problema é que, se eu não fizer isso, nem haverá tempo para apresentar a matéria ao meio-dia. Então, façamos do banheiro a sala de visita.
Avanço, ainda indeciso, e logo sinto um cheiro forte. Não, nada insuportável. É o cheiro de um charuto, fumegando no banheiro. Há uma banheira com água límpida quase até a borda. Dentro dela, um homem pelado. Tem o charuto em uma das mãos. Um copo com algo parecido com uísque está ao seu lado. À sua frente, um suporte apoiado nas bordas laterais e, sobre ele, uma pequena máquina de escrever.
Ali está, em carne e pêlos, o ídolo que logo mais brilhará no palco. Vinícius de Moraes pode ser um pouco excêntrico, mas na intimidade me parece gentil e atencioso, além de desinibido.
Vamos lá. Ligo o gravador e começo o bate-papo. Mas, ao contrário dele, não estou à vontade. Afinal, diante de mim está uma celebridade em franca nudez a desconcertar minha crônica sisudez. Contudo, o que mais me incomoda é o eco dentro do banheiro. Isso não fica bem na gravação. Acho que os ouvintes irão notar algo estranho... e não sei se na reportagem devo explicar o motivo do eco. Bem, a essas alturas não há mais o que fazer. Conversamos sobre o circuito universitário, sobre suas recentes apresentações em países vizinhos, as atuais parcerias, etc.
À noite, acontece o esperado: o show é um sucesso. Vinícius canta e fala durante horas, o tempo todo com bebida ao alcance das mãos. Enquanto o calor do público embala o poeta, o verão do oeste paulista, regado com bebida forte, não lhe faz bem. Resumindo: sai do show diretamente para a emergência do hospital. Quem diria, aquele inofensivo copo na banheira, pela manhã, dera início a uma jornada que acabaria na Santa Casa de Lins.
Uma vez internado, quer o ilustre paciente permanecer ali por mais uns dias, para um checape periódico. Assim, pede ao médico que avalie minuciosamente os problemas com o cachorro.
-- "O quê? Que cachorro? De que você está falando, Vinícius?", teria perguntado o médico.
A resposta, segundo dizem, teria sido de pouca poesia e cheia de filosofia:
-- "Doutor, não sabe o senhor que o uísque é o melhor amigo do homem? Ele é o cachorro engarrafado. Só precisamos ver se tem sido amistoso também com minha saúde..."
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