07 novembro 2006

EU GOSTO E RECOMENDO: Jorge de Lima

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Vamos falar um pouco da boa literatura? Quero mostrar a vocês trechos de um poema muito bom, muitas vezes selecionado em boas antologias brasileiras. Foi também apontado como um dos cem melhores poemas brasileiros do século (XX). Mas não gosto de falar do milagre sem citar o santo. O autor estudou medicina, mas preferia a literatura e o magistério. Sua obra mais importante foi Calunga, tida como um monumento de beleza e sabor nacionais. Alagoano nascido em 1893, Jorge de Lima também escreveu excelentes biografias de Anchieta, Santo Antonio e Dom Vidal. Em certa época, foi considerado o escritor mais querido do Rio de Janeiro. Eis aí sua bela e inquietante negra Fulô:

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
-- Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
para vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!

vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

(....................)

Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
chamando a Negra Fulô).
Cadê meu frasco de cheiro
que teu Sinhô me mandou?

-- Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor
A negra tirou a roupa.

O Sinhô disse:
Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê meu lenço de rendas
cadê meu cinto, meu broche,
cadê meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! Foi você que roubou.
Ah! Foi você que roubou.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?

Essa negra Fulô!


(Jorge de Lima)
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