29 março 2011

ESTÁ DESCONTENTE? BLOQUEIE UMA RODOVIA!

Você segue no ônibus ou no seu carro. Está a caminho do trabalho ou de um dos compromissos marcados ao longo do dia. De repente, trânsito parado, enormes filas de carros, vans, ônibus e caminhões.
Depois de longos minutos, você descobre o motivo: o de sempre. Um protesto na via pública, bloqueada com pneus em chamas. Desta vez, um grupo protesta contra uma ação policial realizada em becos da Vila Bagulho Geral.
Então, enquanto permanece ali sentado, à espera de uma solução (que deve demorar horas), você se pergunta como é que um certo descontentamento de algum grupo em algum lugar pode atingir diretamente o público naquilo que há de tão essencial na cidadania e nos fundamentos jurídicos, que é a liberdade de ir e vir. Ou seja, se a um grupo é atribuído o direito de protestar contra questões isoladas, onde fica o direito do público de se locomover livremente? Afinal, o que foi feito do princípio segundo o qual o direito de um vai até onde começa o direito do outro?
Situações como essa estão acontecendo centenas de vezes. Como não se ouve falar de punições aos manifestantes, mas sim das repercussões a seu favor (espaços na mídia, presença de mediadores e outros gestos prestativos), a história se repete, multiplica-se e se banaliza, sob o olhar compassivo daqueles mais ávidos por enxergar em tudo saudáveis expressões de movimentos engajados na luta por igualdade e justiça social.
Por mais belos que sejam os sonhos políticos e ideológicos, não dá para ver luta social onde arde a baderna selvagem movida por causas duvidosas em caminhos arbitrários. É preciso muito estrabismo para confundir a legitimidade da causa com a impertinência do ato.
A continuar assim, chegará o tempo em que será essa a forma mais cômoda, divertida e impune de protestar contra qualquer coisa, do legítimo ao patético. Não faltará quem queira protestar contra o preço do álcool que subiu, o time que caiu, a luz que apagou, o patrão que abusou, a namorada que traiu, o bofe que bateu, o “heroi” do BBB que dançou...
Parece crescer continuamente a crença de que argumentar diante da outra parte é um fracasso e questionar na Justiça é em vão, mas bloquear a rodovia será sempre opção de grandes resultados e pequenos riscos.
É claro que, algum dia, parlamentares bem pagos e mal fiscalizados irão acordar para uma legislação específica, capaz de enquadrar e punir os responsáveis por manifestação que firam a ordem e o direito, embora já exista claro normativo (Artigo 95 do CBT: Nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres, ou colocar em risco sua segurança, será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade de trânsito com circunscrição sobre a via).
Mas, infelizmente, medidas corretivas podem demorar muito, ao contrário de medidas “lucrativas”. Até lá, meu amigo, muita gente vai se sentir tentada a lançar mão do mesmo artifício.
Por isso, não estranhe se, no futuro, os inconformados de toda espécie aderirem à idéia de bloquear vias públicas. A menos que, a qualquer momento, aconteça uma manifestação legítima contra as manifestações idiotas.
Escrito por Ricardo Zani

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