04 fevereiro 2011

LA BARCA



Para os mais críticos e apegados a sons contemporâneos, o vídeo acima pode se confundir com algum acervo de pieguice indigesta ou com o velho mal do corno incurável. Tudo bem, é compreensível.
Mas, antes de rir com desprezo por esse bolero mexicano, pense em uma coisa: por que certas canções têm o dom de atravessar os tempos e as fronteiras? Quando uma música transcende o tempo, o espaço e os idiomas, algo de excepcional ela deve ter. Dizem que La Barca é uma das canções mais gravadas no mundo. Há quem afirme que existem mais de 1.000 versões dessa música, composta em 1950 pelo mexicano Roberto Cantoral Garcia e popularizada na voz do chileno Lucho Gatica.
Mas por que motivo La Barca haveria de se perpetuar, transpor mares, conquistar gerações e se reeditar com tantas vozes e maestros? De fato, há nela um  poder difícil de definir, algo que o marketing mal explica, as  palavras não traduzem, a semântica não alcança e o tempo não apaga. Quem sabe, só os "sentimentos mais sentidos" as espreitem de algum ponto nos labirintos do espírito humano.
Casualmente, repassando uma das minhas playlists, tentei entender esse enigma. Mas tive de viajar a raízes do velho bolero e bater às portas do grande Lucho Gatica para revisitar o veludo carmim de sua voz perfeita e sentir o purismo romântico que verte da essência poética e melódica. Ali fica mais fácil compreender por que tanta gente navega nessa velha Barca. Para quem quer conhecer os caminhos percorridos por ela, basta citar alguns dos nomes que gravaram essa canção. Além de Luis Miguel, SimoneCaetano Veloso, anote: Plácido Domingo, Joan Baez, Vikki Carr, Maísa Matarazzo, José José (sic), Emmanuel, José Feliciano, Gualberto Castro, Neil Sadaka, Alejandro Algara, Dalida, Mina, Charo, Sarita Montiel, Lucho Gatica, Paul Muriat, Antônio Prieto, Anibal, Anibal Troilo, Pocho Perez, Chucho Ferrer, Caravelle, Frank Pourcel, Los Calavera, André Kostelanetz, Richard Claydermann, Los Diamantes, Perla, Trio Los Panchos, Raul de Biasio, Nina Pissi, Ninda Roustardt, Pedro Vargas, Glória Lasso, Gregório Barrios, Marco Antonio Muniz, René Cabel, Olga Guillot, etc.
Por isso, La Barca flutua no tempo, navega na alma, percorre corações, sangra lembranças e, se for caso de chifres, pode até renovar-lhes o polimento, é claro. Coisa para quem gosta de sofrer por amor? Não sei. Ou, quem sabe, apenas poesia e melodia para quem ama, ainda que sofrendo.
Outros sucessos de Lucho:
Tu Me Acostumbraste
El Reloj
Besame Mucho
Contigo Aprendi
Outras interpretações de Lucho Gatica
(Escrito por Ricardo Zani)

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