17 janeiro 2007

NO LOMBO DA FERA


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Dia longo, morno e cinzento... Céu brilhante com tons cinza, da névoa seca e das queimadas no mato sem chuva.

Sobre o chão plano, o bicho empinado rosna em posição de ataque, encarando o horizonte como se visse uma fêmea no cio. Em cima dele, minhas mãos seguram o ímpeto da fera.

Solto-o na estrada, onde tem o que quer. Espaço e liberdade para mover-se, dominar, conquistar, explodir, enfim, saciar a compulsão de andar sem cansar por destinos pacatos sem fim.

No desafio das longitudes, a magia das imensidões inabitadas consola o abandono do asfalto. Indiferente aos segredos das matas e rios, o motor entre minhas pernas toca firme e ronca forte, jurando cumprir a nobre missão de rodar por rodar.

No lombo do bicho, exploro o prazer dos espaços abertos, da pilotagem saudável, do brinquedão cheio de apetite... Exercito o domínio da fúria e mergulho na arte de reger a sinfonia dos metais quentes, para conhecer o infinito e despertar a rosa dos ventos que refrescam o espírito. Longo como uma solitária BR, o dia segue assim, no vigor do galope que rompe serras, engole planaltos, transpõe vales e risca outro mapa no meu diário de bordo.

Viajar de moto é isso e muito mais. Com todos os perigos e desconfortos desse prazer sem lógica...
(crônica de Ricardo Zani, publicada em novembro de 2005 em Usina de Letras )
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