16 janeiro 2007

ANTES E DEPOIS DE HOMERO

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Vou falar de poesia e sei que são poucas as pessoas que gostam. Então, para quem acha que falar de poesia é perder tempo com fantasia ou pra quem pensa que poesia é coisa de gente muito distante da realidade (como eu próprio chegava a imaginar em outros tempos), recorro a ninguém menos que Aristóteles, em sua “Poética”. Segundo ele, a poesia é algo mais filosófico e mais merecedor de atenção do que a História. Isso porque, enquanto o interesse da poesia são as verdades universais, a História trata de fatos particulares.

Não quero agora falar de Aristóteles, mas de seu compatriota Homero.

Segundo Voltaire, teria sido um sublime pintor. Sublimação impressionante, uma vez que Voltaire lhe atribuiu o poder de pintar sem pincéis nem telas, nem tampouco visão, posto que era cego.

O italiano Giacomo Leopardi também foi taxativo: “Tudo se aperfeiçoou de Homero em diante, mas não a poesia.”

Permitam-me só mais uma citação: “Nenhum poeta, nem mesmo VIRGÍLIO ou DANTE, conseguiu, mesmo que remotamente, igualar seus trabalhos aos dois épicos de HOMERO. Aqueles que tiveram a oportunidade de lê-los (em traduções) e não o fizeram, não são seres humanos completos – como alguns descobrem no caso de ter a sorte de se defrontar com A Ilíada e A Odisséia.”

O último parágrafo, acima, é de Martin Seymour-Smith, em sua obra “Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade”, exatamente no capítulo dedicado a Homero. Eu quis reproduzi-lo para colocar aqui um pouco da verdadeira dimensão dos épicos atribuídos ao poeta grego.

Acalmem-se, porque não vou enumerar nem um pouco das 28.000 linhas dos dois poemas atribuídos a Homero. Apenas registrar sua dimensão e me deixar perder entre a grandeza do criador e de sua obra. Não sei bem por que, mas em certos casos me vejo admirando mais o criador do que sua obra (não me venham insinuar que isso é coisa de gay... até porque estamos no campo da arte e do conhecimento).

No caso de Homero, é fascinante perceber o que esse gênio teria feito. Para alguns estudiosos, como Martins Seymour-Smith, a Ilíada e a Odisséia teriam sido os primeiros produtos substanciais da colisão entre uma cultura recém-alfabetizada e uma antiga cultura analfabeta.

De classe social inferior, teria vivido, provavelmente, no século VIII a.C. Millman Parry e outros especialistas sugerem que Homero não escreveu seus poemas, mas – como era cego -- os compôs oralmente e seguiu declamando-os em muitos lugares por onde andou.

Dúvidas e polêmicas existem. A maior delas, talvez, seja a de que Homero não teria sido autor da Odisséia. Há quem duvide ainda mais: o poeta não teria existido.

Realmente, não há certeza sobre sua existência. Igualmente, parece não haver dúvida de que existem passagens em Homero que foram compostas originalmente por outros poetas. Também há críticas sobre as imprecisões histórias do texto. E daí? Era um poeta, não um historiador.

Para os gregos, nada disso é problema. Para eles, basta saber que um poeta, de origem e época pouco precisas, compôs tudo aquilo. Os dois poemas existem, são referências da poesia universal, são lidos e não se reivindica sua autoria a mais ninguém.

Para nós, talvez bastasse saber que as obras existem.


Quanto a mim, contento-me em saber que são tão grandiosas e estão ao meu alcance...
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