27 março 2006

TRIPUDIANDO SOBRE O SEU VOTO E SOBRE OS RESTOS MORTAIS DA ÉTICA NA POLÍTICA


A dança da deputada no plenário da Câmara Federal, festejando a absolvição de um deputado que confessou ter embolsado boa grana do "valerioduto" repercutiu muito além do imaginado. Um bom exemplo da repercussão é a análise e o protesto do Procurador de Justiça Luiz Lopes de O. Filho. O texto do Procurador é um pouco longo, mas não tem como ignorá-lo, pela sua lucidez, consistência, objetividade e senso crítico. Reproduzo-o integralmente aí abaixo, jutamente com o e-mail do autor. Se você concordar com os argumentos e com o protesto, escreva para ele. E repasse o texto para seus conhecidos.

A dança da deputada

Por Luiz Lopes de O. Filho - Procurador de Justiça (luizlopes.rn@uol.com.br)

Definida etimologicamente como a atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, de ironia ou sarcasmo, ainda que por vezes causando indignação às pessoas, o escárnio é uma das atitudes de maior desrespeito de um ser humano em relação a outro. É quando alguém se acha acima da condição dos demais humanos. É quando se olha de cima para baixo e se anula qualquer sentimento de respeito e de consideração para com seu semelhante. É quando, mesmo tacitamente, há a postura de completo desapreço em relação aos outros, e como se as opiniões desses outros fossem fúteis e desqualificadas, quando não inexistentes.


O escarnimento traduz a completa falta de sentimento e de consideração de uma pessoa em relação às outras ou mesmo de alguém em relação à opinião e ao pensar de um grupo social em referência a si mesmo.Em outras palavras é o completo desprezo. Mais ainda: É a total repulsa e preterição em detrimento do conceito de terceiro sobre atos que o desdenhador tenha, por ventura, praticado.No entanto, se o escárnio se acompanha da zombaria e da ridicularização de tudo que se possa achar sobre a postura do zombador, forma-se, então, a dualidade da arrogância, caminho que desembocará, lastimavelmente, no desplante da soberba e da empáfia.

Os últimos atos do Poder Legislativo Federal têm se mostrado como um grande escárnio daquela instituição para com o povo brasileiro. Não há nada similar, quando se cuida do compromisso dos membros daquele poder para com o povo.Há algum tempo tenho acompanhado a atitude de alguns parlamentares brasileiros e confesso que já estou começando a me indignar com uns tantos.Tomo como exemplo aquela deputada federal pelo Estado de São Paulo que, numa posição sempre preconcebida de tumultuar os processos do conselho de ética, do qual faz parte, já alardeava bem antes que iria pedir vistas nos julgamentos que tentavam cassar os parlamentares do PT. Agora, achando pouco, resolve "dançar" no plenário da Câmara Federal e desdenhar do povo, tudo isto por causa da absolvição de um deputado que confessou haver recebido aproximadamente R$ 450.000,00 do "valerioduto". Não abomino a absolvição, embora discorde dela. Execro, sim, o deboche da deputada para com a opinião pública, e indago: Precisava mesmo dançar?

Quero deixar bem claro que não generalizo a postura de tal deputada. Sei – e não poderia deixar de ser assim – que existem muitos parlamentares sérios no PT, assim como no PMDB, PFL, PSD, etc... Não quero aqui, nem muito menos acolá, perder a ternura da crença no ser humano. Não, não quero! Ao contrário, quero crer nos homens, apesar dos pesares, até porque também sou da raça humana. Se deixasse de acreditar nos meus semelhantes, como eu ficaria sentindo-me parte de uma estirpe degradada da mínima credibilidade? Não, não quero isso. Reluto em perder a fé nos meus semelhantes. Porém, sou obrigado a sucumbir perante a malfadada dança da deputada Ângela Guadagnin e, mesmo com o coração sangrando, confessar que aquele ato nos diminuiu como pessoas, mitigando a grandeza dos seres humanos, amiudando sua nobreza e, por fim, exaurindo a mínima dignidade que ainda se possa extrair das suas entranhas.

Ângela e sua dança, para mim, foram o epílogo da decência. Não há mais palavras a serem ditas e, talvez, nem o silêncio sirva como resposta. A Ângela, nem as batatas...

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